Título incontestável: vencendo as três noites, Caprichoso conquista seu 23º título

Favorito desde a primeira noite para vencer o Festival, o Touro Negro somou 1259.3 pontos contra 1258.5 do Boi Garantido

Parintins (AM) – No retorno histórico após dois anos de paralisação pela pandemia, o boi-bumbá Caprichoso conquistou o 23º título da história no 55º Festival de Parintins. A apuração das notas dos jurados foi realizada na tarde desta segunda-feira (27), na ilha localizada a 369 km de Manaus. Favorito desde o início para vencer o Festival, o Touro Negro somou 1259.3 pontos contra 1258.5 do Boi Garantido. 

Os jurados analisaram as notas de três blocos, cada um com sete itens. O bloco A (comum/musical), tem os itens Apresentador, Levantador de toadas, Marujada de Guerra ou Batucada, Amo do Boi, Toada – Letra e Música, Galera e Organização do Conjunto Folclórico.

bloco B (cênico e coreográfico) compreende os itens Porta-Estandarte, Sinhazinha da Fazenda, Rainha do Folclore, Cunhã-Poranga, Boi-bumbá: Evolução, Pajé, Coreografia; e o bloco C (artístico), analisa Ritual, Tribos Indígenas, Tuxaua, Figura Típica Regional, Alegorias, Lenda Amazônica, Vaqueirada. 

Foto: Bruno Zanardo/Secom

O Touro Negro venceu em todas as três noites do festival folclórico. Com o anúncio do resultado, o presidente do boi-bumbá Caprichoso, Jender Lobato, não conteve as lágrimas e a emoção ao falar sobre o espetáculo da nação azul e branca durante o 55º Festival Folclórico de Parintins.

“É a vitória de uma nação apaixonada, de quem levou esse Festival a sério, de quem investiu para fazer no maior Festival de todos os tempos a maior apresentação de todos os tempos. Todo mundo sabe a dedicação que tivemos. Perdi meu pai há duas semanas e eu não tive luto. Enterrei meu pai e saí do cemitério direto para o galpão para trabalhar pelo Caprichoso. Eu tenho muito orgulho de ter feito esse Festival e ter ganhado esse título. Realizamos um sonho. O sonho de um ‘curumim’ que cresceu vivendo o Caprichoso”, destacou.

Foto: Bruno Zanardo/Secom

Com o tema “Amazônia Nossa Luta em Poesia”, Boi Caprichoso dividiu as apresentações de cada dia em sub-temas “Amazônia-Floresta: o grito da vida” na primeira noite; “Amazônia-Aldeia: o brado do povo” na segunda; e para fechar a noite trouxe “Amazônia-Festeira: o clamor da cura”.

Primeira noite

Compondo o espetáculo “Amazônia Nossa Luta em Poesia”, o boi negro trouxe o subtema “Amazônia-Floresta: o grito da vida” para fechar a primeira noite do espetáculo. O boi branco e azul levou para a arena do Bumbódromo um manifesto em defesa da preservação com alegorias gigantes.

A galera azul e branca não se intimidou e deu show na área também. A cada alegoria, o item 19 ia à loucura. Em um dos momentos, Caprichoso surgiu no meio da torcida.

Foto: Bruno Zanardo/Secom

Outro momento de euforia foi durante a apresentação da cunhã-poranga Marciele Albuquerque. O ritual indígena Tuparí, que trouxe o pajé Erick Beltrão, estreante no festival, foi um dos momentos mais aguardados pelos torcedores do Caprichoso.

Segunda noite

Abrindo a segunda noite desta edição, o Caprichoso levou para a arena o subtema “Amazônia-Aldeia: o brado do povo”. A apresentação faz parte do tema do bumbá este ano, “Amazônia: Nossa luta em poesia” e retratou a pluralidade e resistência dos povos e comunidades tradicionais da Amazônia.

Como Figura Típica Regional (item 15), o Caprichoso apresentou “O Caboclo da Mata”, mostrando a vivência do homem que aprendeu com seus antepassados, a cuidar da floresta. No item 17 – Lenda Amazônica, “Os Trilhos da Morte” trouxeram a narrativa da construção da ferrovia Madeira-Mamoré (1907 a 1912). Já no ritual (item 4), a história da unificação do povo Wayana-Apalai, que habitam a fronteira entre o Brasil e o Suriname, foi retratada na arena.

Foto: Bruno Zanardo/Secom

No momento tribal, o Caprichoso reverenciou mulheres guerreiras como Tuíra Kayapó, Célia Xacriabá, Sônia Guajajara, Sâmela Sateré, Alessandra Kabá, Teporí Yawalapiti e a cunhã-poranga Marciele Albuquerque Munduruku.

Terceira noite

O Boi Caprichoso fechou a terceira noite do 55º Festival Folclórico de Parintins com o tema “A Amazônia-Festeira: o clamor do povo”, o touro negro propõe uma homenagem ao povo parintinense e aos sobreviventes da pandemia com a cultura que salva.

Na arena do Bumbódromo, o azul e branco celebrou a arte do caboclo parintinense, que no contexto da temática da terceira noite, transformou sonhos e lutas em poesia.

Como Figura Típica Regional (item 15), o bumbá trouxe o “Brincador de Boi”, uma homenagem aos caboclos que cresceram participando das festas do Caprichoso como vaqueiros, marujeiros, artistas, tuxauas, bailarinos, brincantes ou torcedores.

No item 17, Lenda Amazônica, o Caprichoso apresentou “Pássaro Primal e o Nascer das aves”, mostrando a crença do povo Kayapó, do Parque do Xingú, de que a vida venceu a morte quando um gavião colossal algoz das aldeias foi martirizado ao lutar contra dois guerreiros gigantes.

No Ritual Indígena (item 4), o Caprichoso fez sua apoteose descrevendo “Yanomami Reahú – Festa da Vida-Morte-Vida”, com fundamentação nos contos do xamã e líder político da floresta, Davi Kopenawa. O momento de comunhão e luta pela terra-floresta foi marcado pela participação do líder indígena Yanomami, Dário Kopenawa.

História do Festival de Parintins

O festival surgiu a partir de uma rivalidade iniciada há quase cem anos, quando dois “bois” começaram a representar nas ruas de Parintins o folclore do boi-bumbá. Os bois encenam a lenda da Mãe Catirina, uma mulher que estava grávida e com desejo de comer língua de boi. Para satisfazê-la, seu marido, Pai Francisco, sacrifica o boi favorito do patrão, que ameaça matá-lo.

Quem salva Pai Francisco da morte é o Pajé, que ressuscita o boi antes da tragédia acontecer. Toda a lenda é ambientada no contexto da Amazônia: os povos indígenas, as criaturas e toda a mística do maior bioma do planeta.

O primeiro boi a representar essa história foi o Garantido, fundado em 1913. Nove anos depois, em 1922, apareceu o boi Galante, renomeado como Caprichoso em 1925. O Garantido usa a cor vermelha e o Caprichoso usa o azul. Nos primórdios, a disputa era informal e acontecia no centro da cidade de Parintins.

Com fantasias, músicas e alegorias, a festividade cresceu e virou uma referência turística e cultural da região Norte.

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